sábado, 24 de outubro de 2015

Sei Não




Abri a janela para admirar a noite fresca, enquanto o Inverno não chega.
E ela lá estava, autêntica trapezista, num extenso fio de teia que não descobri onde se iniciava, já que ultrapassava a janela do vizinho de cima.
Andava à caça, porque já enrolava um insecto que se iludiu com o clarão da janela e foi de encontro à armadilha da caçadora esperta.
A noite só deixou ver pistas desta gorducha aranha e o seu pecúlio nocturno.
Puxei-a para dentro ainda agarrada à teia e acreditem era gorducha de manter respeito. A sombra na tijoleira reflecte o tamanho do abdómen desta aranha caçadora.
Logo a devolvi ao local da caçada evitando ao máximo grandes danos, no visível fio que lhe serve de arma.
Por momentos pensei o que poderá uma aranha de manter respeito fazer, enquanto percorre o meu quarto durante as longas horas da noite.
Será que percorre o meu rosto adormecido tranquilamente, depois de longas horas a trabalhar.
Será que caminha pelo que resta do meu corpo destapado, como se andasse à caça de algum insecto pousado no cobertor que me agasalha.
Será que urde uma teia em volta do meu nariz e impede normalmente a entrada do ar, porque por vezes tenho a sensação de acordar com uma comichão de me sobressaltar?
Será que tenta entrar pela boca aberta, só sendo impedida pelo ressonar quando adormeço de barriga para o ar?
Sei não! Como dizem os nossos irmãos.


sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Por Instantes




Hoje o sol voltou!
Mais lindo e mais apetecível como nunca.
Subi ao tecto do meu mundo e admirei o céu azul, salpicado de pequenas nuvens brancas.
Por momentos inspirei tanta doçura
Por instantes deixei-me levar pelo calor, que embrulhava o meu corpo.
Foram minutos que valeram horas. O sol ressuscitou por horas e aqueceu o meio onde trabalho.
Aumentou a vontade de terminar da melhor forma o dia e regressar com o sol a desaparecer, mas deixando um final de tarde primaveril.
De novo encosto os casacões já afiados para amortalhar o frio.
Volto aos polos de cotoveleiras que dão nas vistas, quando entro nos híper a abarrotar de vozes esquisitas.
E as temperaturas amenas vão permanecer por mais uns dias.
Volta a alegria em aguentar longos dias, esperando que o Inverno tarde e bem cedo, surja o regresso tão aguardado. Mesmo com decisões já tomadas.
Aleluia, aleluia! A vida ressuscita com o nascer do novo dia.

domingo, 18 de outubro de 2015

Estou Longe




Domingo, mais um! 
Quando faltam muitos mais para saborear a companhia de uma mão quentinha, com o calor vindo do coração.
Esperar por esse momento, é acumular ansiedade regularmente. Dentro de quatro paredes fartas de tralha, só dando lugar a uma cama que agasalha.
Só não desejo trapaças no meu trajecto que tentam alterar o meu destino, já escrito nas pedras pontiagudas dos caminhos há muitos anos percorridos.
As pessoas recolhem aos lares ainda a tarde se ergue na plenitude do dia num tempo de folha caída, que arrasta os passos dos que teimam em dar umas voltas pela periferia.
Estou longe, mas bem perto do meu país que se esfalfa nas quezílias partidárias, onde o voto do povo não foi suficiente para eleger um governo e ceder, é o ponto-chave, para avançar para a normalidade.
Estou longe, mas perto da gente miúda que dá continuidade à herança dos antepassados e sentir que estão bem, é sinal que tudo vai caminhando sob rodas.
E assim o Domingo vai passando, agora que o aquecimento foi ligado para dar conforto aos que cá lutam pela vida, num Inverno rigoroso que se anuncia.
Pouco ou nada posso fazer porque lá fora o frio faz estremecer. 
Aproveito para dobrar as roupas da semana e preparar-me para a noite que não tarda.
Acumulo conversas da treta, enquanto os tachos vão ao lume para aquecer o almoço de horas atrás e nada mais me resta do que esperar que a semana se vá depressa, para mais um Domingo que regressa.
O tempo sombrio e frio é duro de ultrapassar.
Mas nada posso fazer a não ser o que ele tem de bom para oferecer: descansar e tirar umas boas sonecas, sonhando com o sol ainda bem espelhado nos momentos recentes passados. Aqui, ou bem perto do mar que me embalava.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

As Negociações Sem fim



Os partidos sentam-se à mesa como gente crescida
Negoceiam quem parte o bolo, mas só um quer a cereja
De vencedores, sentem a cadeira ser ocupada por outros
De vencidos, esfregam as mãos, esperando pelo São Martinho!

O Costa fecha-se em copas!
Esperando que das negociações saia fumo branco
Tem a cabeça a prémio nas suas hostes
Negociar e ganhar tempo, será a sua sorte

Passos Coelho gritou, antes do tempo vitória
Neste momento negocia pelas cadeiras do parlamento
A única solução é entender-se com o vizinho ao pé da porta
Não vá o Diabo tecê-las e surgir, o inimigo de sempre

Paulo Portas, está com os dois pés fora do governo
O povo correu com ele, arrumando-o de vez de qualquer ministério
Aos oportunistas este é o único caminho
Chega de fazer da política, as duas caras identicamente conhecidas.

domingo, 11 de outubro de 2015

É a guerra dos Sexos




Manhã fria e soalheira, percorro o passeio numa caminhada matinal, areando os pulmões do fumo da noite que me intoxicou a mente.
Alguém festeja, que conquistou a liberdade tão ansiada, numa espécie de guerreira revoltada, frisando que nunca mais será humilhada.
É a guerra dos sexos num pestanejar sem nexo, para cair em graça com a sua consciência. Deixando os que espreitam pela foto de beicinho esbelto, dar um ar da sua gentileza, na esperança de oferecer lembranças.
O sol rompe o silêncio da fria manhã, onde todos ainda descansam do aconchego dos bares.
Folgou-se ao som das marradas da semana, deixando correr a noite até que suou a madrugada.
O sono não apaga a descrença na liberdade anunciada e aguardar pela semana (mais uma já traçada) é o antecipar mais meia dúzia de dias passados.
Preparo o almoço golpeando a carne para a temperar com gosto e uma hora depois, irei devorar a crosta tostada, deixando o interior avermelhado saciar a minha fome vincada.
As vozes dos colegas que partilham os momentos desta vida entrincheirada, fazem eco elevado nesta mente armadilhada.
 Oferecem os legumes para confeccionar a salada e já mergulhados nas bebidas avivando vozes alteradas. Picam-se minúsculas salsichas banhadas em ketchup, enquanto o assado faz-se anunciar pelo aroma libertado.
Pela tarde vou percorrer a feira mensal onde tudo é usado. Normalmente visitada por imigrantes gastos pelo tempo cá passado, nesta cidade sempre pronta a abrir as portas aos que procuram uma vida mais risonha, que lhes devolva a certeza de serem úteis e sempre lembrados, enquanto os euros tilintam nas contas da família esperançada.
E por fim. A tarde cedo se vai, dando espaço a que a noite desça tão perto do chão que piso, arrastando as pessoas para o aconchego das casas. Deixando as ruas desertas onde nem os gatos são pardos.

sábado, 10 de outubro de 2015

A noite acompanha-me na Ida e na Volta




Mudam-se os hábitos enquanto o tempo caminha para a penumbra do Inverno.
Levanto-me com a noite a enrolar-se ainda nas mantas que aliviam o cansaço.
Percorro as estradas saturadas de automóveis que como o meu, levam ao destino quem diariamente busca o sustento.
São oitenta quilómetros de luzes encarnadas que se multiplicam em milhares tão juntas, que dá a ideia de um monumental choque em cadeia.
Imenso tempo para chegar.
Imenso tempo para mergulhar em lembranças recentes, que acolhem o nascer do dia e oferece-me o trabalho para realizar com a merecida alegria!
A manhã corre ao sabor das marradas nos dedos e no poderio do corpo.
A dor é breve e as nódoas só são perceptíveis no banho, que relaxa o esforço. Mas a alegria no querer ultrapassa mesmo o dever.
A tarde avança a cada hora, diminuindo o tempo que falta para voltar a casa numa encruzilhada de autoestradas, com mais oitenta quilómetros de distância.
Falta só concretizar a obrigação de colocar nove portas para que os investigadores se fechem em laboratórios e descubram a fórmula certa para nos tornar mais imunes às bactérias do mundo.
Enquanto as coloco sem erros, imagino todo aquele equipamento caríssimo que levará os jovens estudantes de medicina, a pôr em prática o que levou anos a consolidar em agradável teoria.
Regresso por fim a casa, já a noite toma conta de mim e devolve as luzes encarnadas que se multiplicam em milhares estampadas em faróis de curioso designer. Mais nítidas a cada travagem em cima do automóvel mais próximo, enfeitam o caminho de traços que a minha imaginação os liga em linhas vastas para os proteger de qualquer desgraça.
Imenso tempo para chegar!
Imenso tempo que me deixo por minutos embalar num sono profundo e rápido interrompido por um abanão felizmente sem traumas.
Imenso tempo para preparar o dia seguinte, logo que se desliguem as luzes encarnadas e se acendam as que ainda atraem os insectos, que vão resistindo ao anunciar do Inverno.