sábado, 16 de janeiro de 2016

Terás os dias Contados




Desço os quatro andares atolado de roupa até aos cabelos.
Sabendo que mal a porta se abra o vento ronca a sua fúria
Percorro o passeio até ao carro aos ziguezagues
Por Deus, a Natureza libertou as suas garras

O meu bafo nem tem tempo para se expandir
É estilhaçado, desaparecendo na escuridão do dia que mal se aguenta
Triste dia, que não consegue romper o negrão de um céu cinzento
Que trará a noite? Mesmo encolhido em quatro paredes

Inverno de cor maldita, matas qualquer ser vivo que saia da toca
Terás os dias contados, não tarda.
Mas até lá, fazes das tuas. Obrigando invernar corações magoados.

Que mais posso fazer, quando não enxergo viva alma a dois passos
Fechado é como resignar-me à evidência.
Desafio o Alasca cá da terra
Já que de onde venho, muitos dos meus me acham perdido

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Uma hora e quinze de Viagem




Levanto-me ainda o dia é tão longínquo e só tenho poucos minutos para beber um café e duas torradas.
Preparo o lanche do meio-dia como quando era menino e lá vou descendo quatro andares, fazendo o silêncio da noite, já que os vizinhos ainda dormem o sono profundo.
A noite está terrivelmente fria e neva desde o nascer do dia anterior.
Corro não muito depressa para evitar alguma queda na neve ainda bem fresca de um branco imaculado. E entro no carro quentinho, aconchegando-me no banco, mais parecendo uma almofada.
Andamos numa calma nervosa já que a estrada está num estado de rezar aos Deuses.
O vidro da frente recebe a neve que bate numa fúria inquietante, mas as escovas afastam-nas do atrevimento e só deixam por vezes um embaciamento que aproveito para desenhar os meus sentimentos.
Uma hora e quinze de viagem espera-me e por entradas na autoestrada, vejo-me entupido num trânsito intenso.
E a neve não cessa, que loucura! Todos rolam como se nada se passasse e cada um segue o seu destino.
Vinte minutos depois, onde uns continuam a dormitar como se não saíssem da cama. A neve dá lugar à chuva e a via rápida está limpa de qualquer vestígio de neve.
Vai-se a neve, vem a chuva e toca a rolar que se faz tarde!
Vou silencioso, falando comigo próprio e recordando momentos ainda tão vivos de umas férias que pensei serem um paraíso.
Quero esquecer mas não consigo, alguém que partilhou comigo horas que viraram dias. E dias que terminaram impossíveis na hora da partida.
Meia hora depois a chuva desaparece e a estrada torna-se bem seca que liberta um suspiro de satisfação.
A natureza é fértil nestes momentos! Neve, chuva e depois uma acalmia que me acompanha até ao local da jornada.
Visto-me com a farda de longas horas e no quentinho (não é para todos, onde longe mas neste momento satisfeito), dou o máximo para exercer o meu trabalho.
As longas janelas de vidro duplo dão-me a luz bem necessária. É o dia a nascer, ainda esfrego um olho para o abrir a valer e não tarda, chega por fim o terminar e regressar é a satisfação de tudo correr pelo melhor.
Mais uma hora e quinze por entre chuva e neve ao chegar. Aterro numa mesa a abarrotar de marmelada caseira e pão alemão sem centeio.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Cansa até a sua Semente




Amar tanto tempo, cansa até a sua semente.
Seca o terreno há tanto tempo lavrado, com um carinho desmedido e uma dedicação fanática.
Encorrica as expressões e envelhece as emoções. Tornando os desejos a espaços, deixando interrogações sem respostas.
Olho triste para o paraíso. Entretanto o cantinho dos maravilhosos momentos, deixando que veja o negro do céu. Com os constantes aguaceiros que enregelam os ossos, acossados pela dor de pouco ou nada poder fazer.
Deixo que me invada o receio e caio no perco de ter e não ter, observando o tempo correr, na esperança de algo de novo acontecer.
A minha vida é como o mar!
Tem dias de uma acalmia adorável, onde balanço harmoniosamente o corpo no seu dorso.
Outros, tempestuosos. Onde sou escorraçado para terra numa onda raivosa de encontro ao doloroso tapete rochoso. Pensando ao menos lá permanecer curando as chagas visíveis. Mas logo sou amarrado pela violência das águas e torno a encontrar-me no mar alto e tormentoso.
Por meses afasto-me para bem longe, onde ganho o pão tão necessário para o meu dia. Lá permaneço tantos dias, como aqueles que conto para chegar o último e levar-me de volta a casa por uns dias.
São dias que corro atrás do amor sofregamente e sinto ele traído por suposições sem sentido.
Ninguém entende que para mim, viver um dia é como viver uma mão cheia deles.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Longas Luas




Regressei por estradas inundadas que ligam cinco países, que me separam da saudade e da necessidade.
A chuva era violenta, não deixando enxergar mais que um palmo numa noite negra e de manter o silêncio.
O vento abanava a carripana apinhada de quatro rodas, mas fazendo finca-pé em nos levar ao destino. Carregada de chouriços, bacalhau e vinho do Porto. Para nos manter o mais tempo possível, a degustar as origens.
As horas intermináveis não abafavam as novidades das férias carregadas de festejos e oferendas, que escoaram as poupanças que justificam a distância.
Vou-me barricar por cá longas luas, porque carrego o corpo farto de amarguras, de gente que me deu guarida em falsos agasalhos carregados de vinhetas carinhosas.
Como o tempo é o melhor dos remédios, nada melhor que esperar pela cura longe mas bem perto de mim.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

De Ferrari ou Fiat




Eu bem dizia, o Espanhol do Oporto está de malas aviadas.
Será rendido ao que tudo indica pelo Marco, recentemente saído pela porta dos fundos de Alvalade.
E como se não bastasse, vivemos a paródia do Fiat e do Ferrari.
E como todos os caminhos vão dar a Roma, todos lá vão pedir a bênção ao chefe da igreja católica.
Com o Ferrari, o Papa não vai em cantigas.
Com o Fiat, o Papa abençoa os degraus íngremes da ainda curta subida na Liga.
Com as malas aviadas, numa carreira atribulada, agora virado peregrino de cajado. O Papa abençoa este homem de fé e promete-lhe um regresso em quatro rodas.
No Ferrari nunca será, é fácil demais chegar a casa e logo com um amigo recente, depois de meses de costas voltadas.
- Vai de Fiat amigo espanhol!
Diz sua Santidade com aquela voz calorosa de santo.
 - Encosta o cajado e logo verás, o complexo do Seixal para onde entrarás. Numa clausura para ganhar títulos. Foste talhado para isso. Deus dá nozes a quem tem dentes.
Dando o Papa por fim à audiência pedida, de três peregrinos vindos da terra de nossa senhora de Fátima.
À porta da Santa Sé, já aguardavam Sampaio da Nóvoa, Maria de Belém e o professor Marcelo.
Qual deles iria de Ferrari, enviado por Sua Santidade?