segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O meu Anjo da Guarda




Sonhei que voltava a amar-te
Depois de me violentares o rosto
Ainda com as mazelas vincadas
Perdoei o meu próprio desgosto

Surgiste do escuro da noite
Armada com um punhal afiado
Trespassaste o meu peito com raiva
Desfaleci com essa imagem

Momentos depois ressuscitei
Lançando piropos a um anjo
Repreendeu-me das minhas blasfémias
Lembrando-me ser o meu anjo da guarda

Acordei banhado em suor
Corri a levantar o estore
Levei com o dia já alto no rosto
Convenci-me que não existia qualquer desgosto

domingo, 24 de janeiro de 2016

Serão três Meses





Volta inspiração que estás perdoada, depois de uns dias amargurada.
As palavras, não as levam o vento. Algumas, ficam bem cá dentro.
E ficando. Perduram para sempre, emergindo a qualquer momento.
São essas palavras que me identificam nas bóias da vida para não ir ao fundo, quando por vezes sou atingido por vagas agitadíssimas.
Por agora, degusto um bacalhau assado mergulhado em azeite da oliveira do pai cá do Paulo e já saboreei um porto vindo em garrafão de cinco litros, dum cantinho escondido para lá do Douro adormecido.
Um colega celebra o aniversário e como é apanágio dos portugueses, oferece comes e bebes, para dar pela noite dentro.
Outro, é lembrado por se ter ausentado à última da hora, numa viagem relâmpago de encontro ao pai, gravemente debilitado.
Foram-se quinze dias desde o regresso de Portugal e mesmo com frio de rachar o juízo, o tempo passa num caracol malandrão, escondido sob uma invernação.
São três meses cá na terra, onde o ouro nasce como o sol no nosso cantinho à beira mar.
Todos aterram por cá!
Agora são os refugiados a invadir todos os espaços.
Parecem formigas, correndo famintas atrás sabe-se lá do quê?
Uns já deixaram marcas da agressividade que carregam desde o berço.
Outros esticam as mãos, mas para pedirem a ajuda que lhes convém.
Outros coitados, percorrem as calçadas até aos abrigos que lhe foram destinadas.
Enquanto isto, a noite não muito fria observa uma mesa farta de aconchego para o corpo e abre a exteriorização a alguns de nós, em histórias que mesmo mil vezes contadas, ressalvam algum pormenor entretanto lembrado.

sábado, 16 de janeiro de 2016

Terás os dias Contados




Desço os quatro andares atolado de roupa até aos cabelos.
Sabendo que mal a porta se abra o vento ronca a sua fúria
Percorro o passeio até ao carro aos ziguezagues
Por Deus, a Natureza libertou as suas garras

O meu bafo nem tem tempo para se expandir
É estilhaçado, desaparecendo na escuridão do dia que mal se aguenta
Triste dia, que não consegue romper o negrão de um céu cinzento
Que trará a noite? Mesmo encolhido em quatro paredes

Inverno de cor maldita, matas qualquer ser vivo que saia da toca
Terás os dias contados, não tarda.
Mas até lá, fazes das tuas. Obrigando invernar corações magoados.

Que mais posso fazer, quando não enxergo viva alma a dois passos
Fechado é como resignar-me à evidência.
Desafio o Alasca cá da terra
Já que de onde venho, muitos dos meus me acham perdido

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Uma hora e quinze de Viagem




Levanto-me ainda o dia é tão longínquo e só tenho poucos minutos para beber um café e duas torradas.
Preparo o lanche do meio-dia como quando era menino e lá vou descendo quatro andares, fazendo o silêncio da noite, já que os vizinhos ainda dormem o sono profundo.
A noite está terrivelmente fria e neva desde o nascer do dia anterior.
Corro não muito depressa para evitar alguma queda na neve ainda bem fresca de um branco imaculado. E entro no carro quentinho, aconchegando-me no banco, mais parecendo uma almofada.
Andamos numa calma nervosa já que a estrada está num estado de rezar aos Deuses.
O vidro da frente recebe a neve que bate numa fúria inquietante, mas as escovas afastam-nas do atrevimento e só deixam por vezes um embaciamento que aproveito para desenhar os meus sentimentos.
Uma hora e quinze de viagem espera-me e por entradas na autoestrada, vejo-me entupido num trânsito intenso.
E a neve não cessa, que loucura! Todos rolam como se nada se passasse e cada um segue o seu destino.
Vinte minutos depois, onde uns continuam a dormitar como se não saíssem da cama. A neve dá lugar à chuva e a via rápida está limpa de qualquer vestígio de neve.
Vai-se a neve, vem a chuva e toca a rolar que se faz tarde!
Vou silencioso, falando comigo próprio e recordando momentos ainda tão vivos de umas férias que pensei serem um paraíso.
Quero esquecer mas não consigo, alguém que partilhou comigo horas que viraram dias. E dias que terminaram impossíveis na hora da partida.
Meia hora depois a chuva desaparece e a estrada torna-se bem seca que liberta um suspiro de satisfação.
A natureza é fértil nestes momentos! Neve, chuva e depois uma acalmia que me acompanha até ao local da jornada.
Visto-me com a farda de longas horas e no quentinho (não é para todos, onde longe mas neste momento satisfeito), dou o máximo para exercer o meu trabalho.
As longas janelas de vidro duplo dão-me a luz bem necessária. É o dia a nascer, ainda esfrego um olho para o abrir a valer e não tarda, chega por fim o terminar e regressar é a satisfação de tudo correr pelo melhor.
Mais uma hora e quinze por entre chuva e neve ao chegar. Aterro numa mesa a abarrotar de marmelada caseira e pão alemão sem centeio.