terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Será que os jovens de hoje desafiam o seu próprio Destino




Ainda mal me recompunha para pisar o chão que tantos anos percorri, nesta cidade decorada com enormes galos ex-libris do nosso fascínio. E depois da primeira noite agarrado aos lençóis da infância que me restituíram um pouco do sono perdido nos dias que antecederam a partida. Dou de olhos com um miúdo a insistir em passar o separador que resguarda acidentes rumo à via rápida.
Equilibrava-se como uma pena. Mas, poucos metros percorria.
E lá saltava para o passeio deixando os automobilistas estupefactos com a loucura do jovem.
Pensava estar no país onde trabalho, recheado de loucos de todos os tamanhos.
Mas era na minha cidade que um jovem, tentava percorrer uns cinquenta metros equilibrado numa grade de pouco mais que dez centímetros, tendo uns vinte metros mais abaixo a via rápida, que se tombasse ficava esborrachado.
E o puto insistia!
Conseguia quatro ou cinco metros, mas saltava para a berma da estrada quase se amparando aos veículos que vagarosamente circulavam, com os automobilistas a assistir incrédulos à loucura do miúdo.
Parei por minutos incrédulo!
Ele reparou em mim que de telemóvel na mão, tentava registar esta loucura perigosa.
E depois de mais uma tentativa em vão, saltou de novo para a berma e levantou-me o dedo, mandando-me para os lados que todos conhecemos.
Continuei o meu caminho atento ao miúdo que não se cansava de tentar atravessar e já tinha conseguido metade do gradeamento.
Será que os jovens de hoje desafiam o seu próprio destino?
Ou nós já crescidinhos, estamos conscientes que já vimos tudo neste nosso caminho!





domingo, 12 de fevereiro de 2017

A tua Felicidade é a minha Liberdade





Ela apareceu-me no umbral da porta no derradeiro dia, para eu sentir pela última vez, a sua presença.
Demorou a sua chegada, como voos nervosamente atrasados.
A bagagem carregada de fruta antes apanhada, era o tempo de se ruminar com o encontro, que seria o derradeiro pesponto.
O olhar era frio e distante!
Como pode alguém apresentar esse semblante quando horas antes, partilhamos o que diversas vezes soltamos.
Nem um sorriso desmaiado para amenizar a partida que me deixa sempre esmorecido.
Nem uma palavra amiga que me fizesse abrir os lábios para um último sorriso avantajado.
Nem um beijo de despedida, quando nem existiu o da chegada. Para amortecer os lábios secos com o silêncio das horas que passavam.
Nem simplesmente um gesto com a mão, para acompanhar os poucos passos sem o carro como resguardo.
Ela fugiu-me sem a ter encontrado!
Era uma sombra do passado e uma insignificante figura do presente.
Mas como nem tudo é mau, conquistei o descanso!
O alimento saboroso do meu corpo e o sossego da minha mente.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Voltou a Neve




Voltou a neve, com a esperança de a guardar no bornal levando-a para um regresso inesperado.
A rua cobriu-se de branco e os telhados enfeitaram-se como a desejarem, a permanência da brancura que absolve o que se passa por baixo dessas coberturas.
Caminhei para as compras de fim-de-semana com todo o cuidado para não quebrar o esqueleto resguardado pelo casacão de Trás dos Montes, que é a cobiça dos alemães divertidos.
Já me dão mil euros pelo capote. E só o vendo, logo que deixe esta vida de imigrante entrincheirado numa cidade a arrotar bafo de polacos, turcos, italianos, russos e os sem-abrigo.
Nas compras levaram-me pela certa!
Comprei seiscentas gramas de frango (GMO FREIRE HAEHNCHE), indicando dois euros e noventa e nove. Com trinta por cento de desconto, visto a data terminar amanhã. E em vez de me retirarem o desconto, somaram-no e mais grave, até lhe aumentaram o preço. Com um total de cinco euros e cinquenta.
Reclamei na meia dúzia de palavras em alemão que aprendi enquanto lidava com colegas pintados com as nódoas da arte. Mas nada adiantou!
 A chefe da caixa gorda como um bidão, mandou-me passear e ir aturar outra. Mesmo com o talão na mão e tendo-lhe tirado da mão a calculadora que justificava o erro bem evidente. Ela desancava-me abrindo os braços que se me agarrassem. Abafava-me!
Mais logo, quando chegar o tradutor Ribatejano que me guia nestas andanças por terra da tia Merkel, vamos lá e bato o pé à minha indignação.
Não é nada, mas o que me retiveram dá para uma garrafa de Martini e misturando com cerveja, dá para uma noite de folia.
Como não posso mexer no frango para poder reclamar e gozar com a gorda. Vou almoçar umas costeletas já temperadas, num arroz com netos que por aqui custam os olhos da cara e saborear uma pinga espanhola. Para festejar o regresso à terra prometida.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

É enorme como a Maioridade



Hoje o meu pequenote faz anos!
De o ver como o mais novito, hoje já completa dezoito anitos.
Como cresceu!
Como arrebitou as orelhas e se fez um rapagão, enquanto o diabo esfregava um olho.
É um puto modelo!
Não bebe, não fuma.
Faz a cama a custo e entra sempre no quadro de excelência. Mesmo sendo um sufoco, chegar a horas à primeira aula.
Tem tanto de altura como de sabedoria e mesmo tendo o tique de endireitar a marrafinha e roer as unhas. Oferece constantemente aos pais, mãos cheias de alegria.
Já namora como gente crescida. E não se cansa de percorrer quilómetros pata estar com a sua joaninha.
Já carimbou a papelada da carta de condução e não tarda nada, fazer do carro um avião.
Pratica desporto e fortalece os músculos no ginásio perto de casa. Para que a preguiça não o amortalhe, aos jogos de almofada.
Parabéns Duarte!
Mesmo tendo que te dar um salto, porque já me vences em altura. Agarro-te num enorme abraço que bem mereces e vai lá gozar o teu grande dia!



domingo, 5 de fevereiro de 2017

Hoje não Saio





Hoje não saio. Hoje fico em casa!
Hoje amoleço o corpo nas entranhas de quatro paredes, para franquear as incertezas.
Hoje por hoje, resguardo-me de emoções, depois de uma tarde a confessar desejos.
Eu confesso o que me vai na alma, à pessoa que me indica o seu caminho.
Eu sou um coração aberto para quem me abre o seu destino.
Mesmo longe, encontro-me bem perto de alguém, que me ensina o vocabulário do objectivo.
São dias consecutivos a ter a presença de uma luz cintilante que me enche de esperança.
Um rosto que já conheço, num fim de ano marcado pelo engano.
Uma voz metalizada na escrita diária. Que me leva para a cama, a contar os dias que faltam para estar bem junto dela.
É gostoso acordar com o entoar ainda tão vivo de convites audazes, depois de adormecer com o corpo a saltitar de arrepios.
E os dias correm como o derreter da neve, depois de a temperatura subir em flecha aquecendo o corpo e os desejos.
Cinco semanas já se foram depois de deixar o lugar onde pernoitei as minhas saudades, por vezes despercebidas.
Faltam uma mão cheia, para renovar o caudal das saudades e acredito, vou viver de novo a alegria de receber o que me é devido.