quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Afinal o Voto foi no Mesmo




Zegama quebrou a tradição de se deitar cedo e num banho rápido dentro de uma banheira larga de plástico, com água aquecida na lareira, em potes de ferro mais velhos que as histórias dos antepassados. Preparou-se para assistir ao desenrolar dos resultados destas eleições para ele, marcantes. Visto ter alterado o seu voto, sempre no mesmo e agora na certeza da mudança.
Na tasca acomodou-se a um canto e ficou-se pelo primeiro trago, esperando pelas vinte horas na primeira projecção que lhe dava a confirmação da sua plena certeza, na mudança.
O Pelisco ficou a coçar-se nas paredes externas já que animais era proibido, mesmo na tasca do tio Isidro.
Tio Isidro ficou admirado com a visita, mas nem um grunhido soltou naquela voz rouca que assustava quem lá entrasse pela primeira vez.
Soltou-se as projecções e como a aldeia era revestida de laranja, foi o delírio na sala repleta de povo e a cheirar a bagaço.
Zegama deu um ligeiro salto no banco mesmo pesado que o fez ranger um bom bocado, levando o colega do lado a dar-lhe um murraço de alegria.
Qual alegria qual carago!
Zegama deu um salto porque não via lá a sua alegria.
Pediu outro trago, este por conta da casa já que “seu Isidro” era o presidente da Junta. Levando um enorme abraço que lhe manchou a camisa branca só para as festas da Confraria.
Uma hora passou e já com meia dúzia de tragos e com o Pelisco farto de ladrar aos gatos. Reparou na festa da Martins e companhia e os seus olhos abriram-se de espanto (só comparado quando as ovelhas pariam) e comentou para os seus botões, já que não podia dar nas vistas. – Afinal a Martins ganhou!
- Não adormeças Zegama! Gritou-lhe o mesmo do murraço. – Espera que o Portas fale e o Coelho levante o braço de vitória.
Mas primeiro falou o Bloco!
Zegama percebeu que as mulheres pertenciam ao bloco.
Pela primeira vez viu que o símbolo do bloco não foi onde ele fez o xis!
Ou foi? Não, não foi!
Já nada percebia e continuava de golada a enfiar tragos.
Resignado pôs-se a abrir as entranhas da mesa, onde a crosta já não deixava descobrir a madeira e dava para, com a faca de cortar a broa feita no forno lá da casa lacrada com a bosta das cabras. Rabiscar a sua má sorte.
- Foda-se onde votei?
- Zegama ou calas o rafeiro ou vou lá e dou-lhe um biqueiro!
Berro audível de “seu Isidro”, que fez Zegama despertar dos seus pensamentos e correr para a saída de um salto.
Já não entrou. Assobiou e Pelisco deixou a gatazana em paz juntando-se a ele num silêncio, que levou Pelisco a roçar-lhe as pernas de mansinho.
- Olha Pelisco, acho que votei no mesmo de sempre!
- Tanto demorei para ver se via a Martins que fui votar no… foda-se nem sei em quem votei. Eram tantos que me perdi e nem sei onde pus a cruz.
Vamos mas é dormir que amanhã é pegar no rebanho e subir a maldita montanha.
- Mas pelo sorriso do Isidro, votei no partido dele que ganhou mais uma vez. Ficando mais descansado porque assim lá na aldeia ninguém ia saber que apareceu um voto que não valia nada. E se aparecesse sabiam logo que foi ele, já que tanto demorou a entregar a merda daquele voto.
E enrolando a barba de milho, assobiou, mesmo de noite todo o caminho.

domingo, 4 de outubro de 2015

Votem ao Acordar





Zegama, no alto da montanha de rádio colado ao ouvido e os olhos postos no rebanho comandado pelo cão Pelisco, não perdia pitada da campanha para como ele dizia, mudar o rumo do país e mudar a direcção do seu rebanho bem perto dos baixios, junto à estrada onde aí podia ver a carreira e assim alegrar a vistinha com as catraias, num vai e vem para a escola tão longe da terriola.
Foram quinze dias a aturar as arruadas e os discursos dos Costas, dos Passos e da Martins.
Como o seu pensamento era para as catraias da carreira vinte e cinco, a Martins e as amigas eram, quem ele dava mais atenção.
Só elas desviavam a vigilância do rebanho sempre alinhado pelo Pelisco na procura dos rebentos escassos, devido aos malvados incêndios, que devastavam as pastagens e enfureciam Zegama, obrigando a audíveis impropérios que entoavam montanha abaixo.
No caminho que levava da sua humilde casa ainda feita de pedra centenária, até à Junta para votar. Pensava nas palavras dos nossos políticos que nesta altura tudo prometem e depois levam Zegama de volta ao monte longínquo, sem sonhos nem optimismo.
Meia hora levava de sua casa à Junta e deixar o rebanho fechado por trancas manchadas com as turras dos pobres bichos, inquietos por iniciar a diária caminhada em direcção à erva fresca da madrugada. Levavam-no por vezes a interromper a marcha pensando se valia a pena perder o seu precioso tempo com um voto que não iria valer nada. Só serviria para na aldeia saberem em quem ele votava. E como estava com ideias de mudar o seu voto e tentar mudar este país, logo saberiam que Zegama votou nos inimigos do outro lado do rio.
Mas Zegama era um homem que pensava com a sua cabeça só virada para o seu rebanho e de micar bem do alto, duas vezes por dia, a carreira onde sentia o perfume das catraias.
 Desta vez era ponto assente, que chovesse ou caísse pedregulhos do cimo da custosa montanha, iria cumprir o seu dever cívico.
Bem cedo chegou à porta da Junta.
 Ainda se contavam os boletins pelos membros, sempre os mesmos, que tudo pesquisam naqueles olhos de lobo assanhado, prontos a devorar qualquer ovelha tresmalhada, que venha com intenções de alterar o costume da contagem.
Como a hora de abertura ainda dava tempo para o mata-bicho, Zegama foi à tasca perto da igreja e de um trago lá se foi um.
Mais outro e já aliviava as tremideiras para não ser descoberto na mudança de partido. E por fim outro, que alegrou a confiança em ser homem de uma palavra só.
Documentos na mão dirigiu-se à mesa onde o presidente da Junta de óculos na ponta do nariz, lê o seu nome (só aí se lembravam do Zegama), de cor e salteado, já que nos documentos incrustados de lã escurecida, nada se via.
Boletim na mão, entrou no cubículo montado para a ocasião e…. Alto lá, onde está….
Passou um minuto tempo mais que suficiente para os membros saberem que não haveria hesitações por parte do pastor.
Dois, três e nada!
Zegama continuava embrulhado na pesquisa do quadrado onde iria desenhar com força e determinação a mudança de pensamento eleitoral.
Cinco minutos e todos já sabiam que daquele pastor só iria vir voto nulo. Já que foi ensinado a votar no partido do Abade e do presidente da Junta.
De peito feito entregou o seu boletim dobrado como mandam as regras e esperou que o presidente o deixasse cair na urna negra, como o tempo lá fora.
Recebeu de volta os documentos e cumprimentando os presentes com aquelas mãos calejados pelo cajado que guia o rebanho e o ampara em sonecas rápidas. Saiu calmamente batendo os socos na madeira já comida pelo bicho entranhado.
A montanha esperava-o. O Pelisco aguardava-o como guarda de um rebanho onde todas as ovelhas e cabras têm nome de fadas.
Os políticos enganam-nos, os governantes enganam-nos.
Os automóveis enganam-nos, os euros enganam-nos.
Votem ao acordar! As mulheres amam-nos!
Cantarolava enquanto enrolava um cigarro de barba de milho!

sábado, 3 de outubro de 2015

Serão Castelos de Cartas



Estou mesmo a ver, depois da louca vitória
Mudarão administradores, gestores, chefes e subchefes de secção
Será uma correria para as listas de colocação.
Dando lugar aos que lamberam as botas ao Sultão

Mais que prémio merecido!
Correram o País de, lés a lés
Deixando para trás os deveres familiares
Sabendo que se vencessem, nem olharão para trás

Com os lugares ocupados
Arranjarão secretárias para os mais afortunados
Serão amigos do peito, desde o tempo da catequese
Assim o partido, rege os destinos do País a preceito

O povinho volta às lamúrias
Criticando os tachos e os balúrdios que se gastam nas mudanças
Lá se vão mais uns euros, para mais impostos
Deus Meu, mais uma vez viverei na penúria da desgraça

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Eu queria votar num Partido




Eu queria votar num partido que assumisse os erros outrora cometidos, porque acredito que se amadurece com os erros que se cometem e assim sendo não se voltarão a repetir!
Posto isto, o caminho estará aberto para retomar as grandes medidas como sendo o objectivo primordial na melhoria da qualidade de vida de todos os portugueses e na consolidação de um País virado para as grandes questões europeias e ocupar o lugar de direito, desde que descobrimos metade do mundo, desbravando os oceanos que pareciam não ter fim, dando então a possibilidade de se aperceberem que o mundo não tinha limites.
Por isso temos que desafiar uma vez mais os oceanos e descobrir o caminho para a combater o desemprego!
Praga Social sem precedentes. Onde todos os esforços devem ser encaminhados na redução drástica deste drama, para que milhares de famílias não embalem no desespero de tudo terem perdido e deixarem-se dominar pela resignação que termina com a exclusão da Sociedade.
No caminho da harmonia!
Com os professores baluartes no ensino dos nossos filhos. Sejam os comandantes das caravelas lançadas ao vento, para não sufocar a aprendizagem de uma geração que terá forçosamente de subir degrau a degrau e ocupar o seu lugar no elevar Portugal além-fronteiras, dentro das nossas fronteiras. E chamando paulatinamente a geração que teve infelizmente que por em pratica anos de estudo, longe da pátria.
 No caminho da imagem deste País!
Através de mais investimento na Cultura, para que se mostre ao mundo e a quem nos visita, toda a história de um País e toda a capacidade dos portugueses em serem tão ou melhores que os demais.
No caminho da Saúde!
Uma saúde para todos os portugueses, consagrada no pergaminho histórico de Portugal. Para que os meios materiais e logísticos reforcem a prontidão no atendimento. E não nos deixem com mazelas irrecuperáveis a caminho dos hospitais e mesmo dentro deles.
Consagrar como um dever, a todos os cidadãos ter o seu médico de família. Que para além de médico, será o garante do bem-estar do paciente que lhe vai garantir uma melhor qualidade de vida.
No caminho da transparência!
Por uma justiça justa e eficaz, punindo os corruptos cada vez mais visíveis aos olhos de todos os portugueses, com intervenção directa nestes longos anos em governações que nos atiraram para o caos. Escapando impunes, carregados de enormes quantias pertencentes ao povo.
 Assumir erros é, no dia seguinte à vitoria, corrigir o que anos se levou a errar. Se assim não for, Portugal será um deserto onde o pó cobrirá as pegadas da nossa história!