sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Falo de calças como falo da Vida




Trago no cinto a verdade
Tão genuína como os furos da ansiedade
Seguro as calças sem suspensórios
Farta de buracos, do joelho ao regaço

Os três furos são a minha marca
No terceiro é sinal de ameaça
No segundo é o mastigar com esperança
No primeiro olho logo para a balança

São quatro pares de hábito sem descanso
As pretas uso como me corre os dias
As beges alternam com as de ganga durante a semana
As do domingo são perfeitas para me pôr a jeito

Falo de calças como falo da vida
Balanço-a nas duas pernas fazendo pela vidinha
Os dias correm e o cinto vacila
Quando as dispo é sinal de descanso

domingo, 6 de setembro de 2015

Um punhado de barris de Petróleo e meia dúzia de Torres




São homens, mulheres e crianças. Arrastando-se pelos pedregulhos do deserto e pelas águas revoltas do oceano, que os engole quando as frágeis barcaças afundam pelo fluxo enorme de tantos refugiados.
A maioria consegue aproximar-se das margens, ou das redes farpadas que não são obstáculos para, como ratos, passarem para o outro lado.
Esse lado que para eles é o el dourado, chama-se Europa.
Europa! A salvação de uma guerra declarada pelos senhores sentados na almofada, puxando pelos galões de que mandam no mundo e utilizando a Síria como o coração das máquinas de guerra, lançando os obuses do inferno que varrem o ser humano da face da terra (Síria e países vizinhos).
E como somos na Europa sensíveis ao drama lá fora. Porque o que temos bem dentro das portas é ignorado com um olhar para o lado. Vamos acolher nas casas que muitos dos europeus têm a dobrar, o desespero humano que invade diariamente as televisões, essas a quadruplicar dos nossos lares.
Dá-me a sensação que o mundo é só a Europa!
Europa essa, farta de desempregados e de dramas sociais diários. Onde a maioria de países necessita de expulsar o seu povo para uma emigração precoce e exploradora, já que se deixou embrenhar por políticos corruptos. Acolhe agora, num gesto de enorme solidariedade mundial, os refugiados que a maioria desses políticos os lançou nas terríveis mazelas da guerra.
Até a igreja sempre pronta a apelar pela ajuda aos mais necessitados, mas deixando-os morrer nas amarras da mendicidade. Vem agora a correr como judas arrependido, oferecendo abrigo de repente descoberto, para acolher quem se junta á multidão, fazendo como Jesus que arrastava multidões para lhes ensinar a oferecer a outra face.
E os países árabes que se banham no ouro negro que Deus lhes ofereceu para progredirem em já longos anos de prosperidade. Passam ao lado de enorme catástrofe humanitária. Quando bastava com um punhado de barris de petróleo e meia dúzia de torres (das milhares) que rasgam o céu para os ricos estarem bem perto e escolher as estrelas que lhes apetecem. E resolveram, até que os políticos se enchessem da guerra, para que os refugiados voltassem a ocupar o lugar de onde vieram.
Estou como dizia o grande guru, que tudo sabia: É a terceira guerra mundial que caminha por batalhas, para não destruir de uma só vez o mundo. Já que muitos dos que a iniciam, querem viver toda a vida! 

sábado, 5 de setembro de 2015

Ele chega antes da Hora




A temperatura baixou e o agasalho apareceu.
Ainda no domingo estavam trinta e alguns graus, num dia de procurar a sombra das árvores e logo depois, já desejava o agasalho porque treze graus era o que registava os termómetros desta região.
As previsões são péssimas. O Inverno caminha a passos largos deixando o Outono enterrado na penumbra dos montes.
Adivinho um Inverno de gelar os ossos, por isso à que pôr trancas às portas para obrigar o frio atrevido a encontrar outro caminho.
E o Setembro ainda agora entrou!
E eu há dois meses que aqui estou, ansioso por uma fugida tentando apanhar o sol que sei, enche o meu país de norte a sul.
Vivo de promessas em chegar à minha terra.
Foi na semana que passou, seria nesta que agora findou e provavelmente ficará a promessa, de finalmente acontecer na próxima que ainda nem se iniciou.
Às tantas, só com o Natal bem perto é que levo as prendas já descobertas.
Reparto a casa com quatro. Mas hoje estou só.
Em muitas ocasiões mais vale só que mal acompanhado, o que assenta que nem uma luva neste sábado de frio e chuva.
Adoro o sol e todo o seu esplendor. Aquece a alma e amolece o coração.
O sol alimenta o desejo e fortalece o sorriso de quem ainda tem espasmos em o expandir.
Mas faça sol ou chuva, o importante é continuar a seguir o caminho da alegria e ir ao encontro, de quem me espera com saudades que transbordam estes corpos ansiosos por se encontrarem e unirem-se num abraço que nunca irá terminar.


sexta-feira, 4 de setembro de 2015

A enorme bola de Sabão




Com dois paus e um trapo comprido, mais uma bacia com o líquido que faz magia. Alegra-se a pequenada na praça apinhada.
Ele lá se instalou e durante algum tempo fez levantar imensas bolas de sabão e levantar a alegria dos miúdos, em longos saltos para rebentar as bolas que eram enormes.
Depois juntou alguns deles e tentou ensinar-lhes a simplicidade em fazer libertar dúzias de bolas, com as cores do arco íris.
Tanta paciência usou, que conseguiu que um deles libertasse a bola mais volumosa que dali surgiu.
Belo momento que captei. E imaginem a alegria do petiz vê-la subir vagarosamente sobre as cabeças dos transeuntes abismados, com o tamanho dessa bola de sabão.
Por largos minutos a praça encheu-se dos gritos alegres da miudagem. Que ao passar, saltava de dedo em riste para rebentar as frágeis bolinhas de sabão.  Algumas delas ainda se mantinham intactas durante breves momentos, nos ramos das árvores que rodeiam a praça.
Com pouco se alegra muitos miúdos.
Ainda bem que alguém surgindo do nada, instala-se na calçada e oferece de graça, milhares de sorrisos num final de tarde a cheirar a fim de semana.



domingo, 30 de agosto de 2015

Três Anos longe do meu País




Parti há três anos, com uma mala farta de tralha e de alma vazia.
Um coração cansado de se oferecer para acolher, o carinho de abraços que ultimamente nunca se aproximavam.
Um semblante distante, preso ao oco de meses isolado, mergulhado na solidão profunda de uma casa onde passei a ser um obstáculo.
Pousei pela madrugada numa terra farta de trabalho, onde a fartura contrastava com a míngua do meu país.
Passei a ganhar o que já não levava para o lar e abre-te sésamo: o homem sempre voltou a ter habilidade para trazer dinheiro para casa!
E três anos volvidos, voltei a sentir a liberdade partindo do nada!